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A evolução da Befana e seu papel como ícone italiano sob Mussolini

  • Foto do escritor: Bruno Marchesini
    Bruno Marchesini
  • há 3 dias
  • 7 min de leitura


Introdução


A história da Befana atravessa séculos de tradições, crenças populares e movimentos culturais que marcam a identidade italiana. Esta figura mítica, conhecida por visitar as casas das crianças na noite de 5 para 6 de janeiro, mistura elementos de antigas religiões, lendas locais e adaptações ao longo do tempo. Poucos imaginam que a bruxa simpática, considerada hoje um símbolo carismático da Epifania na Itália, também foi usada como ferramenta política para forjar unidade nacional. Neste artigo, exploramos a trajetória impressionante da Befana, desde suas origens antigas até a sua reinvenção como símbolo patriótico sob o regime de Mussolini – uma jornada que dialoga com o passado e o presente da cultura italiana.


Em resumo


  • A Befana é uma figura lendária italiana associada à Epifania, cujahistória daremonta a tradições pré-cristãs.

  • Inicialmente ligada a rituais de fertilidade e à agricultura, ela foi posteriormente vista como bruxa e personagem folclórica.

  • Durante o regime fascista de Mussolini, a Befana foi cooptada como símbolo patriótico para promover valores familiares e nacionais.

  • Hoje, a Befana é celebrada em toda a Itália, sendo parte fundamental da cultura e das festividades de início de ano.


Sumário




Origens antigas da Befana


Antes de se consolidar na tradição católica, a Befana era a representação de antigas crenças ligadas ao ciclo das estações e à fertilidade da terra. Muitos estudiosos associam sua origem a figuras femininas reverenciadas em rituais pagãos, como as deusas romanas Strenia e Diana, bem como divindades ligadas à colheita, à abundância e à renovação.


A celebração desta entidade feminina acontecia sempre no início do ano, sincronizando-se com festas de purificação agrícola. Durante essas festividades, a troca de presentes e comidas desejava prosperidade e fartura para a nova estação. Os traços dessa tradição sobreviveram nas crenças populares, reforçando o papel da Befana como portadora de dádivas ou, em tempos antigos, bênçãos camponesas.


Divindade/Entidade

Relação com a Befana

Diana

Deusa romana da natureza e da lua, ligada ao feminino e à renovação

Strenia

Deusa da saúde e fortuna, celebrada no início de janeiro


Transformações simbólicas e folclore


Inicialmente tida como um espírito benéfico, a Befana foi sendo transformada à medida em que se desenvolviam novas narrativas regionais. Com o avanço do tempo, a sua imagem passou de deusa protetora à figura de uma velha de aspecto humilde, envolta em vestes surradas, semelhante à imagem clássica de uma bruxa, mas carregando consigo tanto doces quanto carvão.


Essas mudanças refletem a influência de lendas europeias onde mulheres velhas tinham papel de mediadoras entre o passado e o futuro, purificando o ano velho e abençoando o novo. O aspecto ambivalente da Befana – capaz de premiar ou de castigar as crianças – nasceu desta sobreposição de crenças antigas e cristãs, simbolizando que cada ação tem sua consequência.


  • Doces: premiam as crianças comportadas.

  • Carvão: símbolo de castigo para as desobedientes (atualmente, doces de açúcar imitando carvão).



A Befana na época do cristianismo


Com a expansão do cristianismo, a Befana sobreviveu através de adaptações para incorporar os valores cristãos. A associação com a Epifania e a visita dos Reis Magos permitiu a integração da personagem ao calendário eclesiástico, preservando as festas tradicionais sob a ótica da nova fé.


Segundo as lendas adaptadas, a Befana teria auxiliado os Reis Magos em sua jornada ao indicar o caminho até o Menino Jesus, recusando-se, porém, a segui-los diretamente. Após se arrepender, teria tentado encontrá-los, levando presentes a todas as crianças, razão pela qual teria origem o costume de distribuir doces e presentes na data.


Esta mistura entre oralidade popular e ensinamentos religiosos fortaleceu a presença da Befana no imaginário coletivo italiano, tornando-a um elo entre tradição ancestral e cristianização das festas de início de ano.



A tradição da Befana se disseminou especialmente nas regiões centrais da Itália, encontrando terreno fértil em cidades e vilarejos que ainda hoje promovem festas típicas, reencontros familiares e eventos comunitários neste período. Com o passar dos séculos, a lenda se consolidou, influenciando até mesmo o modo como se encerram as festividades natalinas no país.


Durante a noite de 5 de janeiro, é comum as famílias decorarem suas casas com meias prontas para receber os regalos deixados pela misteriosa visitante. Desfiles de Befanas, mercados de doces e apresentações teatrais transformam a data em uma das mais marcantes do calendário italiano, principalmente entre as crianças, que veem na personagem um misto de magia e moralidade.


Essas festas não apenas mantêm viva a memória da tradição, mas também funcionam como uma ponte entre as gerações, criando oportunidades para compartilhar histórias, ensinar valores e cultivar o sentimento de pertencimento à cultura italiana.


Mussolini e a reinvenção da Befana


A influência política sobre a lenda da Befana ganha destaque no período do regime fascista de Benito Mussolini. Ao perceber o potencial simbólico da tradição, o governo fascista tratou de reapropriar-se da figura da Befana atribuindo-lhe um novo significado ligado à identidade nacional e à valorização da família italiana.


Mussolini enxergou na festa da Befana uma oportunidade de fomentar o sentimento patriótico e promover valores moralistas que favorecessem o regime. Foi assim que, nos anos 1930, surgiu a Campagna della Befana Fascista: uma iniciativa de caridade em massa, onde presentes eram distribuídos para crianças pobres de todo o país por meio de eventos oficiais. A festa, antes de cunho mais familiar e comunitário, ganhou forte apelo estatal e politizado.


  • Promoção da unidade nacional: A Befana foi ressignificada como agente de solidariedade e união.

  • Valorização da maternidade e do trabalho doméstico: Incentivando o modelo familiar desejado pelo regime.

  • Instrumentalização cultural: Transformando a tradição em um símbolo do "italianismo" oficial.


Esse capítulo foi decisivo para consolidar a Befana não só como lenda, mas como ícone nacional.


A Epifania e a Befana no calendário italiano


Na Itália, a Epifania é uma das datas mais aguardadas após o Natal, encerrando o ciclo das festividades de fim de ano. Celebrada oficialmente em 6 de janeiro, ela marca, segundo a tradição cristã, a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus.


A Befana, ligada diretamente a essa data, faz parte de uma rotina coletiva que mescla o sagrado ao profano. Enquanto as igrejas celebram a Epifania em liturgia, as ruas se enchem de festas populares, mercados coloridos, fogueiras simbólicas e encenações que remetem ao fim do período natalino.


Além do indispensável ritual das meias nas chaminés e da entrega dos doces, há cidades e vilarejos que realizam eventos históricos e desfiles onde Befanas percorrem os centros urbanos distribuindo guloseimas e animando os participantes.


Data

Atividade típica

5 de janeiro

Noite da espera – crianças deixam as meias penduradas

6 de janeiro

Festejos da Epifania com festas de rua, mercados, desfiles e queima de fogueiras


A Befana nas tradições regionais


Apesar de ser um ícone nacional, a celebração da Befana assume formas e rituais distintos em diferentes regiões da Itália. Cidades como Urbania, na região de Marche, se tornaram conhecidas por festas grandiosas em homenagem à personagem, atraindo visitantes do país inteiro.


Na Toscana, a tradição se mescla a festas de rua coloridas, enquanto na Campânia e em outras regiões do sul, há costumes particulares de confeccionar meias decoradas e entoar canções típicas. No centro, cidades organizam procissões e encenações que destacam o imaginário da Befana voltando para casa em sua vassoura voadora.


Essa variedade de celebrações demonstra a riqueza e pluralidade da cultura italiana, na qual o passado é constantemente reinterpretado e adaptado conforme o contexto social e histórico.


Curiosidades e simbolismos


  • Befana e o fogo: Em muitos eventos, é tradicional queimar uma efígie da Befana em fogueiras comunitárias, simbolizando purificação e renovação do ciclo anual.

  • Presença na literatura: Diversos escritores e artistas representaram a Befana em contos, poemas e ilustrações, alimentando seu mito entre as gerações.

  • Marketing das festas: Nos tempos modernos, a imagem da Befana foi adotada pelo comércio, influenciando a decoração de vitrines e o setor de brinquedos e doces durante o mês de janeiro.

  • Curiosidade linguística: O termo "Befana" deriva possivelmente de uma corruptela do grego "Epifania".


A Befana, embora retratada como bruxa, jamais foi ligada a histórias de maldade, exceto pela função de alertar sobre bom comportamento. Seu simbolismo transita entre o cuidar e o advertir, preservando sempre um caráter afetuoso e familiar.


Conclusão


A trajetória da Befana é a síntese de uma Itália onde passado e presente se entrelaçam em celebrações de identidade, renovação e pertencimento. Da deusa pagã à bruxa carismática, da tradição camponesa à política de massas, seu mito evoluiu junto com as mudanças da sociedade. Sob o regime de Mussolini, a Befana foi resgatada e transformada em símbolo patriótico, tornando-se ainda mais arraigada no imaginário nacional.


Hoje, ao celebrar a Befana, italianos e descendentes revivem não apenas um conto folclórico, mas praticam um ritual de perpetuação da cultura, solidariedade e esperança para o novo ano. Essa tradição sólida é também motivo de orgulho para muitas famílias que buscam resgatar laços com a terra de seus antepassados. Não por acaso, o Eu Italiano valoriza e compartilha essas histórias para ajudar descendentes e interessados a se reconectarem com a riqueza cultural e histórica da Itália, tornando o processo de reconhecimento da cidadania não só um trâmite burocrático, mas uma verdadeira experiência de identidade.


Celebrar a Befana é, portanto, celebrar tudo aquilo que torna a cultura italiana única e fascinante: a capacidade de se reinventar, de preservar memórias e de transformar tradições em símbolos vivos do presente.


Perguntas frequentes



Quem é a Befana na tradição italiana?

A Befana é uma figura folclórica que, na véspera da Epifania, visita as casas das crianças para deixar doces para as comportadas e carvão simbólico para as que não se comportaram bem.



Qual o significado histórico e cultural da Befana?

A Befana tem raízes em tradições pagãs ligadas à fertilidade e renovação, além de ter sido adaptada ao cristianismo e posteriormente usada como símbolo patriótico durante o regime de Mussolini.



Como Mussolini utilizou a figura da Befana?

Mussolini utilizou a Befana como ferramenta política para promover a unidade nacional, valores familiares tradicionais e o "italianismo", por meio da Campanha da Befana Fascista nos anos 1930.



Quais são as principais tradições relacionadas à Befana hoje?

Hoje, a celebração da Befana inclui decorações com meias, desfiles, entrega de presentes e doces, além de festas populares que reforçam o sentimento de pertencimento à cultura italiana.



Onde ocorrem as maiores celebrações da Befana na Itália?

Grandes celebrações são realizadas em cidades como Urbania, na região de Marche, além de eventos regionais na Toscana, Campânia e outras áreas que oferecem rituais e festas tradicionais.


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